IV SEMINÁRIO NACIONAL DE LINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA - Senallp

I SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE LINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA (SILLP)

 
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A IMPORTÂNCIA DO LETRAMENTO COMO PRÁTICA SOCIAL Susana Lucas Tavares (UNIPAMPA)

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A IMPORTÂNCIA DO LETRAMENTO COMO PRÁTICA SOCIAL

Susana Lucas Tavares ( Unipampa)

 

  1. INTRODUÇÃO

 

A educação passou por transformações nos últimos anos. Começando pelo aluno, que se transformou, gerando uma reestruturação de toda escola e equipe para recebê-lo. A escola perante tal situação necessitou de alterações em sua estrutura física e organização burocrática e por fim, o professor que necessita rever diariamente sua prática e sempre estar em formação para atender as demandas de várias ordens de seus alunos e também da instituição onde trabalha.

Por vivenciar estas mudanças em seu cotidiano, o professor como um agente ativo no ato de educar sente carências de conhecimento, portanto, o objetivo do presente estudo é esclarecer e ressaltar a necessidade de um letramento como forma mais completa e ampla da alfabetização, bem como distinguir letramento de alfabetização, através de questionamentos a alunos que demonstram, através destes instrumentos, suas vivências e leituras de mundo. A partir daí, formula-se a seguinte pergunta norteadora: Como as práticas de letramento dos alunos podem contribuir na sala de aula para o ensino do professor?

Parte-se então, para uma inferência significativa do professor, que não se apegando às defasagens ou dificuldades do aluno, começa uma viagem de descobertas e investigações com o objetivo de conhecer os letramentos que dominam a realidade pontuada.

Justifica-se a importância do trabalho, tendo em vista a amplitude do vocábulo em voga para nós educadores que priorizamos não só uma leitura ou escrita subdividida em níveis e muitas vezes mecânica e psicológica. Desejamos uma apropriação bem maior destas competências, ou seja, que o aluno saiba interagir com o mundo letrado, seja da forma escrita ou falada, porém, que desenvolva habilidades críticas contextualizadas com sua realidade.

No primeiro momento, o estudo propõe-se em desvendar quais são as práticas mais evidentes, para como um objetivo posterior estabelecer as maneiras que o professor pode contribuir com práticas letradas na sala de aula pensando no cotidiano de seus alunos.

Baseando-se na concepção de letramento toma-se como base as autoras Angela B. Kleiman,( 1991), Magda Becker Soares( 1995), Roxane Rojo ( 2004).

O artigo está organizado em quatro partes relativas à introdução, referencial teórico, metodologia e análise dos resultados, sendo nesta última apresentado o questionário e a discussão de dados relevantes à pesquisa.

  1. REFERENCIAL TEÓRICO

Já dizia FREIRE Paulo ( 1993 ): “ De ler o mundo, de ler a palavra e assim ler a leitura do mundo anteriormente feita. Mas ler não é puro entretenimento nem tampouco um exercício de memorização mecânica de certos trechos do texto”.

A citação acima faz-nos refletir sobre a leitura e baseados nas concepções de letramento, refletir também sobre a própria linguagem, pois as crianças antes mesmo de serem alfabetizadas são letradas, no sentido de possuírem estratégias orais e leitura de mundo ligadas de alguma forma à escrita.

É muito interessante criar um paralelo entre duas palavras que aparentemente podem ser sinônimas: ler e estudar e, ao mesmo tempo que, parafraseamos a frase de Ziraldo, comentada  em Congresso em 2004 por Rojo, refletimos sobre o sentido destas duas palavras. Pois, quando classificamos a primeira prática como voluntária, ela pode ser prazerosa, já a segunda estamos delimitando como obrigatória, ou seja, ruim, chata. Então nos deportamos à escola, pensamos no professor e nos remetemos a práticas ineficazes, onde não desenvolvem senão a mecanização, separando a leitura do estudo. Nos perguntamos, os alunos sabem o que lêem? Ou apenas copiam, respondem literalmente questionários como está escrito no texto?

Acho cruel, pensarmos que no século XXI muitas pessoas que podem estudar, não chegam a ler.

 

 

Pode-se afirmar que a escola, a mais importante das agências de letramento, preocupa-se, não com o letramento, prática social, mas com apenas um tipo de prática de letramento, a alfabetização, o processo de aquisição de códigos (alfabético, numérico), processo geralmente percebido em termos de uma competência individual necessária para o sucesso e promoção na escola. Já outras agências de letramento, como a família, a igreja, a rua como lugar de trabalho, mostram orientações de letramento muito diferentes ( Kleiman, 1995:20).

 

 

Sabe-se devido a inúmeros estudos na área que letramento é muito mais que repetir, revozear falas e que as mudanças que foram comentadas acima deste texto devem incorporar o objetivo de formar na Escola alunos-cidadãos, críticos e não importando a esfera social condizente a cada um, o professor deve emergir às suas aulas qualquer tipo de letramento que eles possuam.

É possível ser analfabeto e participar de práticas de letramento. Às vezes nos perguntamos, o que o professor prioriza ensinar na sala de aula? Como seleciona essas prioridades?Pela realidade ou por exigências sociais do uso da leitura e escrita, para funcionar em sociedade.

Alfabetização é um conceito que disputa espaço com o de letramento ( estado ou condição de quem sabe ler e escrever).

Então chegamos num ponto importante de discussão: para ler e escrever não é suficiente conhecer o alfabeto e decodificar letras em sons, é relacioná-los com temas e conhecimento de mundo.

Letrar pode ser considerado mais que alfabetizar porque prioriza as habilidades de comparar, generalizar, prever, inferir e acima de tudo estabelecer relações. Não apenas uma forma desconexa de juntar letras para formar palavras.

Segundo SOARES ( 2008: 45), “ As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática de leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita”.

O alfabetizado de nível pleno considera somente as capacidades de leitura literal dos textos e não as capacidades de leitura crítica.

O mundo letrado é de acesso ilimitado a todos que vivem e convivem em sociedade. O acesso a livros está cada vez mais fácil com a democratização da cultura e da informação na escola, o que pode acarretar melhorias em termos de escolarização e letramentos.

É papel da escola e do professor proporcionar práticas significativas e coesas, bem como estimular e seduzir o aluno com livros e leituras compreensíveis e prazerosas para sua vida.

Conclui-se das reflexões anteriores que, nos dias de hoje, em que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas na escrita, porém isto tem se revelado condição insuficiente para responder às demandas contemporâneas.

 

2 METODOLOGIA

Foi adotado o tipo de pesquisa qualitativa, obedecendo ao paradigma clássico, a partir de métodos qualitativos de investigação.

Foram aplicados instrumentos de pesquisa na forma de questionário objetivo, a três alunos, do 4º ano do Ensino Fundamental, da rede Municipal.

A tabulação será elaborada a partir da análise qualitativa (descrevendo os percentuais) das respostas dadas nos instrumentos e colhidas nas técnicas junto à população alvo.

Os dados foram dispostos em tabelas divididas em Sim e Não, subdivididas em 1º, 2º e 3º, como forma de representar os três entrevistados.

Posteriormente será feita a conclusão dos resultados embasando a proposta da pesquisa nas concepções dos autores citados anteriormente.

 

 

 

 

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

Na tabela a seguir, está descrita a atividade questionada e as divisões daqueles que realizam ou não as atividades. Sabendo que os questionamentos foram realizados em três alunos, abaixo discriminados.

Para uma maior compreensão, a tabela está apresentada em blocos.

1º Bloco

 

ATIVIDADE

Realiza as atividades

Não realiza as atividades

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

  1. Consultar um catálogo telefônico

 

 

X

X

X

  1. Consultar um guia de rua

 

 

 

X

X

X

 

O primeiro bloco de perguntas exige uma compreensão que somente uma leitura mecanizada não é suficiente. Percebe-se que todos os entrevistados responderam negativamente à pergunta e é muito interessante destacar que de três alunos, dois não sabiam o que é guia de rua, nem mesmo catálogo telefônico. Porém dois de três alunos possuem celular e sabem manusear na agenda de seu aparelho.

Destacamos que os estudos de letramento têm se voltado em especial para os letramentos locais ou vernaculares, de maneira a dar conta da heterogeneidade das práticas não valorizadas e, portanto pouco investigadas. Como afirmou Kleiman ( 1995: 105).

Esses dados são muito significativos para o professor trazer para a sua aula. O conhecimento dos mapas das ruas e guia telefônico, podem enriquecer muito as aulas. Bem como, a produção de uma agenda manual com os nomes e telefones dos colegas e integrantes dos contatos da agenda do celular.

2º Bloco

 

ATIVIDADE

Realiza as atividades

Não realiza as atividades

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

  1. Fazer lista de coisas que precisa fazer

X

X

X

 

  1. Usar agenda para marcar compromissos

X

 

X

X

 

 

  1. Deixar bilhetes com recados

X

 

X

 

X

 

  1. Escrever cartas para amigos

X

 

X

 

X

 









 

Neste bloco, constata-se que a maioria das respostas foram positivas. Porém dos três alunos, dois não possuem agenda e relataram marcar os compromissos e bilhetes em geral no caderno usado na sala de aula.

No item escrever cartas para amigos dois alunos responderam que escrevem cartas para os amigos de escola (1º entrevistado) e bilhetes para a professora e para a mãe ( 3º entrevistado). O segundo entrevistado respondeu que não gosta de escrever.


3º Bloco

 

ATIVIDADE

Realiza as atividades

Não realiza as atividades

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

  1. Ler cartas de amigos

 

 

 

X

X

X

  1. Ler correspondência impressa

 

 

 

X

X

X

  1. Procurar ofertas em revistas

X

 

X

 

X

 









 

Neste bloco os alunos relataram que não gostam de ler, porém o acesso à encartes e revistas é ilimitado.

Destaco, neste momento a idéia de ROJO, 2004:

A escolarização, no caso da sociedade brasileira, não leva à formação de leitores e produtores de textos proficientes e eficazes e, às vezes, chega mesmo a impedi-la. Ler continua sendo coisa das elites, no início de um novo milênio.

A escola precisa resgatar seu papel de formador de leitores críticos e reflexivos!

 

 

 

 

 

 

4º  Bloco

 

ATIVIDADE

Realiza as atividades

Não realiza as atividades

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

1ºaluno

2ºaluno

3ºaluno

  1. Verificar a data de vencimento dos produtos

X

 

X

 

X

 

11.  Comparar preços

X

X

X

 

 

 

12.  Fazer comprar com crediário

X

 

X

 

X

 

13.  Pagar contas em bancos ou casas lotéricas

X

 

X

 

X

 

14.  Fazer depósitos ou saques em caixas eletrônicos

X

 

X

 

X

 

15.  Ler manuais para instalar aparelhos domésticos

X

 

X

 

X

 

16.  Reclamar por escrito sobre produtos ou serviços que adquiriu

 

 

 

X

X

X









 

 

Percebe-se neste bloco a prática de letramento social, com significados multissemióticos, já não bastando a leitura do texto verbal escrito, é preciso relacioná-lo com signos de outras modalidades de linguagem. Por exemplo, nas atividades que exigem a prática oral, a maioria dos participantes responderam positivamente. Realizando práticas como comparar preços, fazer compras em crediários, etc.

 

4 CONCLUSÃO

Através deste estudo, foi claramente perceptível a importância do letramento para os alunos, sendo esta prática mais ampla que a alfabetização, pois existem aspectos envolvidos nela e extremamente necessários para o aluno.

Com os questionamentos, conversas e trocas de informação fiquei extremamente feliz com os primeiros resultados do trabalho. Os alunos envolvidos são extremamente letrados, muitos mesmo não possuindo uma “alfabetização significativa”, ou seja, lendo e escrevendo com dificuldade, conseguem conviver em sociedade, participando efetivamente em eventos de letramento, sendo críticos a ponto de pesquisar e ou reclamar preços, solicitar informações, etc.

O convívio com materiais que instigam a leitura e escrita é mínimo, como por exemplo, livros, bíblia, diário, enciclopédias e computador. Daí concluímos que a escola deve quebrar ainda mais paradigmas, tornando-se uma instigadora, promovendo a cultura em todas suas interfaces, proporcionando, se possível, passeios a museus, cinemas, exposições, etc.

O aluno tem muito mais a nos mostrar do que ele geralmente mostra, por isso somos nós professores que devemos proporcionar que ele esteja completamente inserido na sociedade com o melhor que ele pode dar.

 

 

 

 

 

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar.10.ed. São Paulo: Olho D´Água, 1993.

KLEIMAN, Angela. Os significados do letramento.São Paulo: mercado das letras,1991.

SOARES, Magda. Letrar é mais importante que alfabetizar.

ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a cidadania. São Paulo: SEE: CENP, 2004. Texto apresentado em Congresso realizado em maio de 2004.

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